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quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tanto mais eu te contemplo - Affonso Romano de Sant'Anna

Tanto mais eu te contemplo
tanto mais eu me absorvo
e me extasio.

Como te explicar
o que em teu corpo eu sinto,
o que em teus olhos vejo,
quando nua nos meus braços
nos meus olhos nua,
de novo eu te procuro
e no teu corpo vou-me achar?

Como te explicar
se em teu corpo eu me eternizo
e de onde e como
sendo eu pequeno e frágil
pelo amor me dualizo?
Tanto mais eu te possuo
tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.

E à força, de tanto contemplar-te
e de querer-te tanto,
já pressinto que em mim mesmo
eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,

pouco a pouco fui mudando
para o teu ser de graça cheio.


Sant'Anna, Affonso Romano, 1937-
Poesia reunida: 1965-1999 / Affonso Romano de Sant'Anna.- Porto Alegre: L&PM, 2004.

terça-feira, 21 de junho de 2011

O duplo - Affonso Romano Sant'Anna

Debaixo de minha mesa
tem sempre um cão faminto
-que me alimenta a tristeza.

Debaixo de minha cama
tem sempre um fantasma vivo
-que perturba quem me ama.

Debaixo de minha pele
alguém me olha esquisito
-pensando que eu sou ele.

Debaixo de minha escrita
há sangue em lugar de tinta
-e alguém calado que grita.



San'Anna, Affonso Romano, 1937-
Poesia reunida: 1965-1999/ Affonso Romano de Sant'Anna.- Porto Alegre:
L&PM,2004.

domingo, 19 de junho de 2011

Floral - Affonso Romano de Sant'Anna

É isso.É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
politizam suas dores.
Eu
me polenizo
ou polemizo
- com as flores.



Sant'Anna, Affonso Romano, 1937-
Poesia reunida: 1965-1999/ Affonso Romano Sant'Anna. - Porto Alegre:
L&PM,2004.

Presente vivo - Affonso Romano de Sant'Anna

Viver
é conjugação diária
do presente.

Viver
é presentear.
Mais do que um jeito de doer
é um modo de doar.

E um presente
mais que um objeto
é o elo entre dois olhos
a floração do gesto
o prateado evento
e o cristalino afeto.

Não se dá
apenas pelo prazer
de ver
o outro receber.
Dá-se
para que o outro
entre-abrindo-se ao presente
também dê.



Sant'Anna, Affonso Romano, 1935-
Poesia reunida: 1965-1999/Affonso Romano Sant'Anna.-- Porto Alegre:L&PM,2004.

domingo, 24 de abril de 2011

Errando no museu Picasso - Affonso Romano de Sant'Anna

Picasso
erra
quando pinta
e erra
quando ama.

Mas quando erra,
erra
violenta e
generosamente,
erra
com exuberante
arrogância,
erra
como o touro erra
seu papel de vítima
sangrando
quem, por muito amar, fere
e sai ovacionado
com bandeirilhas na carne.

Pintor do excesso
e exuberância,
Picasso
é extravagância.

Ele erra, mas nele,
o erro
mais que erro
- é errância.


Poesia reunida: 1965-1999/ Affonso Romano de Sant'Anna.-Porto Alegre: L&pm,2004.

Estás partindo de mim - Affonso Romano de Sant'Anna

Estás partindo de mim
e eu pressinto que me partes,
e partindo, em ti me vais levando,
como eu que fico
e em mim vou te criando.

Tanto mais tu me despedes
e te alongas,
tanto mais em mim vou te buscando
e me alongando,
tanto mais em mim vou te compondo
e com a lembrança do teu ser
me conformando.

Estás partindo de mim
e eu pressinto:
na verdade, há muito que partias,
há muito que eu consinto
que tu partas como um mito.

Mas não és a única que partes
nem eu o único que fico:
sei que juntos e contrários
nos partimos:
- pois tanto mais nos desencontros nos revemos,
tanto mais nas despedidas consentimos.



Poesia reunida: 1965-1999/Affonso Romano de Sant'Anna.-Porto Alegre:L&PM, 2004.

Tanto mais eu te contemplo - Affonso Romano de San'tanna

Tanto mais eu te contemplo
tanto mais eu me absorvo
e me extasio.

Como te explicar
o que em teu corpo eu sinto,
o que em teus olhos vejo,
quando nua nos meus braços
nos meus olhos nua,
de novo eu te procuro
e no teu corpo vou-me achar?

Como te explicar
se em teu corpo eu me eternizo
e de onde e como
sendo eu pequeno e frágil
pelo amor me dualizo?
Tanto mais eu te possuo
tanto mais te tornas bela,
tanto mais me torno eu puro.

E à força, de tanto contemplar-te
e de querer-te tanto,
já pressinto que em mim mesmo
eu não me tenho,
mas de meu ser, ora vazio,

pouco a pouco fui mudando
para o teu ser de graça cheio.



Poesia reunida: 1965-1999/ Affonso Romano de Sant'Anna. Porto Alegre: L&PM,2004.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aquele menino - 1 - Affonso Romano de Sant'Anna

Saudade de um eu
de que me dão notícia
como do irmão gêmeo
que se perdeu
ou de algo distante:
um primo ou conhecido
que usou um terno meu.

Me dizem
que conversaram com "ele"
ou "eu"
Há quem o tenha tocado
e dele ouvido frases de amor
e pasmo.

Viram-no descendo ruas do interior
pregando nas esquinas
desejando suas vizinhas
depois escalando árvores , edifícios, pirâmides
procurando algo que se perdeu
lendo hieroglifos
na biblioteca de Babel.

Outros o viram grave e irônico opinando
ou desatento olhando para o lado
de dentro
de insolúveis questões.
Para alguns parecia estar apressado
como se fosse buscar o futuro
ou inaugurar o passado.

Gostaria de rever esse menino
que dizem que fui eu.
Então o acolheria
incorporando-me ao que fui
e há muito se perdeu.

Enfim lhe pediria
aceite-me de volta
não sou teu pai
sou filho teu.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna.- Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Esse coração - Affonso Romano de Sant'Anna

Àa vezes, como agora
ouço bater-me o coração.
Mas em geral
nem lhe presto atenção.

Passo semanas, anos
sem me dar conta
como se essa fosse
dele a profissão.

Lateja independente de mim
meu coração
vivo tão longe dele
ele
pulsando lá por sua conta
eu seguindo minha vida
exceto
é claro
quando desencadeia-se
o amor-paixão.
Aí eu-sou-ele
ele-sou-eu
no mesmo desespero
e glorificação.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna. - Rio de Janeiro: Rocco,2005.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O homem e sua sombra - Affonso Romano de Sant'Anna

Era um homem que tinha uma sombra branca
que de tão branca
ninguém a via.
Mesmo assim ela o seguia
e com ela dialogava.
Tinha-se a impressão
que uma coisa ausente
lhe fazia companhia
o duplicava
- quase seu guia.

Na verdade ele era a sombra
de sua sombra
- a parte da sombra que se via.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna. Rio de Janeiro: Rocco,2005.

Quando Caravaggio descobriu a luz - Affonso Romano de Sant'Anna

Quando Caravaggio descobriu a luz
foi ele que saiu da sombra
de outros quadros
de outras mãos.

Não deve ter sido fácil
esse transcurso
que o digam Rembrandt e Vermeer.

Há sempre o risco da madrugada
quando, enlouquecidas, as cores
transbordam das molduras e dos seus usos.

A tais pintores
o desafio se impõe:
reinventar no claro o seu contrário
e extrair do escuro
seu luminoso discurso.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Vida artística - Affonso Romano de Sant'Anna

Queriam escalar a montanha
como quem fugisse de um afogamento.
Mas ao invés de oferecerem os ombros
para que os pés dos outros se elevassem
puxavam para baixo tentando impedir
que os demais galgassem.

Assim a escalada para cima
era para baixo uma escalada
e os que chegavam ao topo
ao invés de se extasiarem com as alturas
e a beleza dos lugares
rejubilavam-se, por algum tempo
de não terem sido ainda destruídos por seus pares.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna. Rio de Janeiro: Rocco, 2005

domingo, 12 de dezembro de 2010

Quando ela sobrevém - Affonso Romano de Sant'Anna

É isso:
quando ela me sobrevém - a poesia
e pulsa e respira forte
a mão procura o papel
como a agulha aponta o norte.

É isso:
quando me inunda os ossos
tenso, remo com os versos que posso
derramo a alma contida
e o alquebrado pote.

É isso:
quando a poesia revem
carrego papel e lápis pra cama
como quem acomoda e ajeita
o corpo que aquece e ama.

É isso:
quando a poesia se oferta
e a insônia povoa os olhos
atravesso a pele das noites
num ofício de trevas claras.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna.Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Organizar prazeres - Affonso Romano de Sant'Anna

Cortar delicadamente a fruta
e degluti-la
densamente
como se beija a nudez única
da mulher madura.

Organizar os prazeres
olhar a paisagem
a gravura
e atento ao que está fora
concentrar-se no que está
dentro da moldura.

Do papel, a espessura
sobre a qual a mão desliza
e na qual se apura
o que será a imprevista
escritura.

Seguir cada inseto
no galho ou no gramado
com a devoção
dos livros de iluminuras.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

Certa ferida - Affonso Romano de Sant'Anna

Como a árvore a que cortam um galho
e permanece(aparentemente) intacta
-suportar em silêncio certos afrontamentos.

Foi profundo o talho
embora o tronco se ostente sólido
impassível.

Uma flor brotava errante
na parte decepada.

Eu a mereci.
E isto basta
na sucessão das possíveis primaveras.


Vestígios/Affonso Romano de sant'Anna.Rio de Janeiro: Rocco,2005.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Se vocês não se incomodam - Affonso Romano de Sant'Anna

Se vocês não se incomodam
vou morrer esta noite um pouco mais
Não como quem se vai ou desanima
mas como quem
dá hora extra numa usina.

Se vocês me permitem
morrerei durante o dia um outro tanto
como quem se consome
num trabalho que o fascina.

Não há tristeza nisto.
Desde Ovídio a natureza nos ensina:
a nuvem desmancha-se em outra
sem chorar
e o rio hora nenhuma se arrepende
de seu encontro com o mar.

Lição da pedra - Affonso Romano de Sant'Anna

Muitos, vindos do século 19
foram enterrados no século 20.
Outros
já atravessamos a soleira do 21
mas morreremos antes
que o século chegue ao meio e ao fim.

Alguns, é claro, planejam ir mais longe
e para tanto se exercitam
tomam vitaminas
contando com a sorte postergar a morte.

As pedras ouvem esses projetos.
Elas não almejam isto.
Não almejam
e no entanto
- conseguirão.

Gerações ll - Affonso Romano de Sant'Anna

Se tirarmos
os drogados
os suicidas
os guerrilheiros mortos
os fracassados
os canalhas
os mediocrizados
sobrariam os vitoriosos
e a vida certamente seria linda.

Linda.

- Mas seria vida?

Gerações l - Affonso Romano de Sant'Anna

Ando muito decepcionado com os homens
e comigo.
Com minha geração
em especial.
Íamos salvar o mundo
e falhamos.
Alguns ainda tentam
(Não me iludem)

Merecíamos melhor sorte.
Nós, os ilustres fracassados
- e o povo
que nem se dá conta
que tínhamos projetos ótimos para redimi-lo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Velhice erótica - Affonso Romano de Sant'Anna

Estou vivendo a glória de meu sexo
a dois passos do crepúsculo.

Deus não se escandaliza com isto.

O júbilo maduro da carne
me enternece.
Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço.