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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Rotação - Cassiano Ricardo

a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
de novo a esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança

a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera
a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança

a esperança me ensina
uma nova espera a nova
espera me ensina
uma nova esperança
na esfera

Relógio de pêndulo - Cassiano Ricardo

Nada melhor do que um relógio antigo
pra quem cultive a graça das demoras.
Um relógio que, por absurdo e ambíguo
marque mais os outroras que os agoras.

Um monstro tardo, não obstante assíduo,
que acuse mais os anos do que as horas.
E mais viva atrasado no castigo
que a me indagar na pressa: por que choras?

O que mandei comprar a um velho avaro
é assim - memória no desassossego.
Gorjeia às vezes mais do que um canário.

Relógio sub-reptício que (morcego)
chupa o meu sangue mas, em cada brecha,
as asas dos ponteiros abre e fecha...

Desejo - Cassiano Ricardo

As coisas que não conseguem morrer
só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
o meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
que morreram no primeiro entardecer.

Ser deus - e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas -
é não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
entre as coisas que são, e as nebulosas,
que não conseguem dormir nem morrer.