domingo, 3 de janeiro de 2010

Ausência - João Guimarães Rosa

Na almofada branca
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés...

Partiste...
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito...

Entardece...
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui...)

Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas...

E na almofada de seda
beijo as sandálias brancas,
vazias dos teus pés.

Quando escrevo... - João Guimarães Rosa

" Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um lèxico só não é suficiente.Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como  a alma  de um homem. Na superfície  são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens."

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Nova canção do exílio - Ferreira Gullar

Minha amada tem palmeiras
onde cantam passarinhos
e as aves que ali gorjeiam
em seus seios fazem ninhos.
Ao brincarmos sós à noite
nem me dou conta de mim:
seu corpo branco na noite
luze mais do que o jasmim.


Minha amada tem palmeiras
tem regatos tem cascata
e as aves que ali gorjeiam
são como flautas de prata.
Não permita Deus que eu viva
perdido noutros caminhos
sem gozar das alegrias
que se escondem em seus carinhos
sem me perder nas palmeiras
onde cantam os passarinhos.

Poema - Ferreira Gullar

Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos-da-Ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó-
dos-Andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.

Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

Um instante - Ferreira Gullar

Aqui me tenho
Como não me
conheço
nem me
quis
sem começo
nem fim
aqui me
tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um
bicho
transparente.

Um instante - Ferreira Gullar

Metade - Ferreira Gullar

Que a força do medo que eu tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que triste...

Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante.

Porque a metade de mim é partida,
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço.

E que essa tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso
mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais.

Porque metade de mim
é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,
e a outra...
também.