terça-feira, 12 de abril de 2011

Green god - Eugénio de Andrade

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.



Eugénio de Andrade/ Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudos, notas de Arnaldo Saraiva, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O sol na ilha de Poros - Jean-Pierre Lemaire

O quarto do sol
o quarto dos enamorados azuis
o quarto da noite dos tempos
Todos se comunicam
na memória da felicidade
que conserva suas cores puras
sem paredes entre as horas


Jean-Pierre Lemaire/Poemas: trad. de Júlio Castanõn Guimarães

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sonhei tanto contigo - Robert Desnos

Sonhei tanto contigo,
andei tanto, falei tanto,
amei tanto a tua sombra,
que não me resta mais nada de ti.
Resta-me ser a sombra entre as sombras
ser cem vezes mais sombra que a sombra
ser a sombra que virá e voltará em tua vida
ensolarada.


Desnos, Robert. Domaine publique. Paris: Gallimard,1953.

Palavra Mágica - Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na
sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a
encontro,
não desanimo
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Arte poética - Vicente Huidobro

Que o verso seja como uma chave
que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
que tudo quanto vejam os olhos criado seja,
e a alma de quem ouve fique tremendo.

Inventa mundos novos e cuida de tua palavra;
o adjetivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
pendura o músculo,
como lembrança, nos museus;
mas nem por isso temos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, oh poetas!
fazei-a florescer no poema.

Só para nós
vivem todas as coisas sob o Sol.

O poeta é um pequeno deus.


Huidobro, Vicente. Antologia poética. Org. de Hugo Montes. Madrid:Castalia,1990

Primeira luz - Giorgio Caproni

Leitosa de alvorada
nasce nas colinas,
gaguejando palavras ainda
infantis, a primeira luz.

A terra, com seu rosto
mádido de suor
abre ensonados olhos d'água
à noite que embranquece.

(São sempre os pássaros os primeiros
pensamentos do mundo).


Caproni, Giorgio. "Come un'allegoria(1932-35)". In: Bernardini Aurora Fornoni (org. e trad). Agamben comenta Caproni. Florianólis: UFSC, 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Escola de Bem-te-vis

Muita gente já não acredita que existam pássaros, a não ser em gravuras ou empalhados nos museus - o que é perfeitamente natural, dado o novo aspecto da terra, que, em lugar de árvores, produz com mais abundância blocos de cimento armado. Mas ainda há pássaros, sim. Existem tantos em redor da minha casa, que até agora não tive (nem creio que venha a ter) tempo de saber seus nomes, conhecer suas cores, entender sua linguagem. Porque evidentemente os pássaros falam. Há muitos, muitos anos, no meu primeiro livro de inglês se lia: "Dizem que o sultão Mamude entendia a linguagem dos pássaros..."
Quando ouço um gorjeio nestas mangueiras e ciprestes, logo penso no sultão, e nessa linguagem que ele entendia. Fico atenta, mas não consigo traduzir nada. No entanto, bem sei que os pássaros estão conversando.
O papagaio e a arara, esses aprendem o que lhes ensinam, e falam como doutores. E há o bem-te-vi, que fala português de nascença, mas infelizmente só diz o seu próprio nome, decerto sem saber que assim se chama.
Anos e anos a fio, os bem-te-vis do meu bairro nascem, crescem, brigam falam... - depois deixam de ser ouvidos: não sei se caem nas panelas dos sibaritas, se arranjam emprego, se viajam, se tiram férias, se fazem turismo. Não sei.
Mas, enquanto andam por aqui, são pacientemente instruídos por seus pais ou professores, e parece que, tão cedo começam a voar, já vão para as aulas, ao contrário de muitas crianças que antes de irem para as aulas já estão voando.
Os pais e professores desses passarinhos devem ensinar-lhes muitas coisas: a discernir um homem de uma sombra, as sementes e frutas, os pássaros amigos e inimigos, os gatos - ah! principalmente os gatos... Mas essa instrução parece que é toda prática e silenciosa, quase sigilosa: uma espécie de iniciação. Quanto a ensino oral, parece que é mesmo só:"Bem-te-vi! Bem-te-vi",que uns dizem com voz rouca, outros com voz suave, e os garotinhos ainda meio hesitantes, sem fôlego para três sílabas.
Antigamente era assim. Agora, porém, as coisas tem mudado. Certa vez, quando pai ou professor ensinava com a mais pura dicção: "Bem-te-vi!" - o aluno, preguiçoso, relapso ou turbulento, respondeu apenas: "Te-vi!" Grande escândalo. Uma pausa, na verde escola aérea. "Bem-te-vi! Bem-te-vi!", tornou o instrutor, com uma animação que se ia tornando furiosa. Mas os maus exemplos são logo seguidos. E a classe toda achou graça naquela falta de respeito, naquela moda nova, naquela invenção maluca e foi um coro de "Te-vi! Te-vi! Te-vi", que deixou o próprio eco muito desconfiado.
Essa revolução durou algum tempo. A passarinhada vadia pulava de leste para oeste a zombar dos mais velhos. "Bem-te-vi!", diziam estes, severos e puristas, tentando chamá-los à razão. "Te-vi! Te-vi!", gritavam os outros, galhofeiros, revoltosos, endoidecidos.
Passou-se o tempo necessário ao aparecimento de uma nova geração. E então foi sensacional! Os passarinhos mais recentes ouviam aquele fraseado clássico dos avós: "Bem-te-vi! Bem-te-vi!" - e deviam achar aquilo uma língua morta: o latim e o sânscrito lá deles. Depois, ouviam a abreviatura dos pais: "Te-vi!Te-vi!" Mas acharam muito comprido ainda. (Que tranbolho, a família) E passaram a responder, por muito favor, "Vi! Vi!" Muito mais econômico. Afinal, pelos ares não voam mais anjos e sim aviões a jato...
"Bem-te-vi!", exclamam os anciãos, com sua dignidade ofendida. "Te-vi!", respondem os filhos revoltosos. E os netos, meio chochos: "Vi! Vi!"
Quanto aos bisnetos, vamos ver o que acontecerá. Talvez os professores mudem de método. Talvez mude o ministro. Talvez os tempos sejam outros, e a passarinhada volte a ser normal, ou deixe de falar, só de pirraça, ou invente - quem sabe? - uma expressão genial. E também pode ser que não haja mais bem-te-vis.


O que se diz e o que se entende: crônicas/ Cecília Meireles.- Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.