domingo, 3 de julho de 2011

Nada é impossível de mudar - Bertolt Brecht

Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.


Brecht, Bertolt, 1898-1956.
Antologia poética/ Bertolt Brecht; seleção e tradução de
Edmundo moniz. -2ª ed.- Rio de Janeiro: Elo Editora, 1982.

Poesia do exílio - Bertolt Brecht

Nos tempos sombrios
se cantará também?
Também se cantará
sobre os tempos sombrios.


Brecht, Bertolt, 1898-1956.
Antologia Poética/ Bertolt Brecht; seleção e tradução de Edmundo moniz. 2ª ed.- Rio de Janeiro: Elo Editora, 1982.

sábado, 2 de julho de 2011

O que o vento não levou - Mario Quintana

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


Quintana, Mario,1906-1994.
Quintana de bolso/ Mario Quintana. - Porto Alegre: L&PM, 1997.

O olhar - Mario Quintana

O último olhar do condenado não é nublado
sentimentalmente por lágrimas
nem iludido por visões quiméricas.
O último olhar do condenado é nítido como uma fotografia:
vê até a pequenina formiga que sobe acaso pelo rude braço do verdugo,
vê o frêmito da última folha no alto daquela árvore, além...
Ao olhar do condenado nada escapa, como ao olhar de Deus
-um porque é eterno,
o outro porque vai morrer.
O olhar do poeta é como o olhar de um condenado...
como o olhar de Deus...


Quintana, Mario, 1906-1994.
Quintana de bolso/Mario Quintana.- Porto Alegre:L&PM,1997.

Dedicatória - Mario Quintana

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal na mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia,
O resto não passa de crônica policial-social-política.
E os jornais sempre proclamam que a "situação é crítica"!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria,
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são quotidianas como o
pão nosso de cada dia
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida
na concha da mão.


Quintana, Mario, 1906-1994.
Quintana de bolso/Mario Quintana.-Porto Alegre:L&PM,1997.

Lições de arquitetura - (sobre a arquitetura de Oscar Niemeiyer) - Ferreira Gullar

No ombro do planeta (em Caracas)
Oscar depositou para sempre uma ave uma flor
ele não faz de pedra nossas casas
faz de asas.
No coração de Argel sofrida
fez aterrisar uma tarde uma nave estelar
e linda
como ainda há de ser a vida
(Com seu traço futuro Oscar nos ensina que o
sonho é popular)
Nos ensina a sonhar
mesmo se lidamos com matéria dura
o ferro o cimento a fome
da humana arquitetura
Nos ensina a viver
no que ele transfigura
no açúcar da pedra
no sonho do ovo
na argila da aurora
na pluma da neve
na alvura do novo
Oscar nos ensina
que a beleza é leve.


Lispector, Clarice, 1920-1977
Entrevistas/Clarice Lispector; [org.de Claire Williams; preparação de originais e notas biográficas de Teresa Montero].- Rio de Janeiro:
Rocco, 2007.

Não sinto - Angela Melim

Não sinto
(muito mais)
falta
nem saudade.

Estou tomando gosto das coisas.

Figuras e linguagem.

Uma laranja
diminutivo
sopinha quente
um sorriso
uma boa chuveirada.

O verão!
Como é colorido.
Super.

O Rio de Janeiro.
Uma viagem.
Contradições. Sinônimos.

Que boa a mão da idade.


Melim, Angela. "Não sinto". In: Félix, Moacir.
41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1998.
Postado por Antonio Cícero em Acontecimentos.