sábado, 3 de setembro de 2011

Troca - Mario Benedetti

É importante fazê-lo

quero que me contes
teu último otimismo
eu te ofereço minha última
confidência

mesmo que seja um truque
mínimo

fiquemos cara a cara
estás só
estou só
por algo somos próximos

a solidão também
pode ser
uma chama.




Benedetti, Mario, 1920-2009
O amor, as mulheres e a vida/Mario Benedetti;
tradução Julio Luis Gehlen. - Campinas, SP: Venus, 2010.

´Tática e estratégia - Mario Benedetti


Minha tática é
olhar-te
aprender como és
querer-te como és

minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é
ficar na tua memória
não sei como nem sei
com que pretexto
mas ficar em ti

minha tática é
ser franco
e saber que és franca
e que não nos vendamos
simulacros
para que entre os dois
não existam véus
nem abismos

minha estratégia é
no entanto
mais profunda e mais
simples

minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.



Benedetti, Mario, 1920-2009
O amor, as mulheres e a vida/Mario Benedetti;
tradução Julio Luis Gehlen.- Campinas, SP: Venus, 2010.

Estados de ânimo - Mario Benedetti

Umas vezes me sinto
como pobre na colina
e outras como montanha
de cumes repetidos

umas vezes me sinto
como um precipício
e em outras como um céu
azul mas distante

Às vezes a gente é
manancial entre rochas
e outras vezes árvore
com as últimas folhas

mas hoje me sinto apenas
como lagoa insone
com um embarcadouro
já sem embarcações

uma lagoa verde
imóvel e paciente
de bem com suas algas
seus musgos e seus peixes

sereno em minha confiança
confiante em que uma tarde
te aproximes e te olhes
te olhes ao olhar-me.



Benedetti, Mario,1920-2009
O amor, as mulheres e a vida/Mario Benedetti;
tradução Julio Luis Gehlen.- Campinas, SP: Vênus, 2010.

domingo, 14 de agosto de 2011

Flora - Bartolomeu Campos de Queirós ( trecho)

Flora era como madrugada.
Trazia no corpo a cor da noite somada
ao brilho do dia.
Era ônix molhado com a claridade do sol.
Sua maneira de viver era estar entre
o plantio e a colheita.
Passava os dias escutando o sol,
entre nuvens, para nas noites dialogar
com a lua, entre estrelas.
E para melhor escutar, Flora
restava sempre em silêncio.
Assim sendo, Flora era medianeira
entre a penumbra e o mistério.

...Flora segurava sementes
na palma da mão e sua alma se abria em festa
diante de tamanho alumbramento.
Seus olhos inquietavam o pensamento ao pensar
no gosto, no perfume, na cor, na forma existente
no interior de cada grão.
Poesia contida e pronta para interrogar
a possibilidade do infinito.
Nesse momento ela descobria que nascer
só valia a pena quando para bem viver a diferença.



Queirós, Bartolomeu Campos de
Flora/Bartolomeu Campos de Queirós;
ilustrações Ellen Pestili. 2ªed. - São Paulo: Global, 2009.

O albatroz - Charles Baudelaire

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os caminhos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu ninho!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flexa no ar,
Exilado no chão, em meio à corja impura,
A asa de gigante impedem-no de andar.



Baudelaire, Charles. "O Albatroz". Tradução de Guilherme de Almeida. In:Magalhães Junior,R. Antologia de poetas franceses do século XV ao século XX. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.
Postado por Antonio Cícero em Acontecimentos.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pronominais - Oswald de Andrade

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro



Moriconi, Italo (organizador)
Os cem melhores poemas brasileiros do século/ Italo Moriconi(organizador).
-Rio de Janeiro:Objetiva, 2001.

Canção do exílio - Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilogos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!



Moriconi, Italo (organizador)
Os cem melhores poemas brasileiros do século/Italo Moriconi(organizador).
-Rio de Janeiro:Objetiva, 2001.