sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Não sei o que desgosta a minha alma doente - Fernando Pessoa

Não sei o que desgosta
A minha alma doente.
Uma dor suposta
Dói-me realmente.

Como um barco absorto
Em se naufragar
À vista do porto
E num calmo mar.

Por meu ser me afundo,
P'ra longe da vista.
Durmo o incerto mundo.



Pessoa, Fernando, 1888-1935
Poesia, 1902-1917 / Fernando Pessoa; edição Manuela Parreira da silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine. - São Paulo: Companhia das letras, 2006.

Poente - Fernando Pessoa

A hora é de cinza e de fogo.
Eu morro-a dentro de mim.
Deixemos a crença em rogo,
Saibamos sentir-nos Fim.

Não me toques, fales, olhes...
Distrai-te de eu 'star aqui
Eu quero que tu desfolhes
A minha ideia de ti...

Quero despir-me de ter-te,
Quero morrer-me de amar-te.
Tua presença converte
Meu esquecer-te em odiar-te.

Quero estar só nesta hora...
Sem tragédia...Frente a frente
Com a minha alma que chora
Sob o céu indiferente,

Basta estar, sem que haja ao lado
Exterior da minha alma
Meu saber-te ali, iriado
De ti, mancha nesta calma

Ânsia de me não possuir,
De me não ter mais que meu,
De me deixar esvair
Pela indiferença do céu.



Pessoa, Fernando, 1888-1935
Poesia, 1902-1917 / Fernando Pessoa; edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas e Madalena Dine. - São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Ao sentir nos pássaros - Carlos Drummond de Andrade

Ao sentir nos pássaros
tanta liberdade
e aéreo poder,
imagina um pássaro
superior a todos
e tão invisível
que seu vôo deixe
sensação de sonho.
Com leveza e graça
o homem pensa Deus.



Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987
A paixão medida / Carlos Drummond de Andrade; prefácio, Miguel Sanches Neto.- Rio de Janeiro: Record, 2002.

A folha - Carlos Drummond de Andrade

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não-coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.



Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987
A paixão medida / Carlos Drummond de Andrade; prefácio, Miguel Sanches Neto. - Rio de Janeiro: Record, 2002.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Receita contra dor de amor - Roseana Murray

chore um mar inteiro
com todos os seus barcos a vela
chore o céu e suas estrelas
os seus mistérios o seu silêncio
chore o equilibrista caminhando
sobre a face de um poema
chore o sol e a lua
a chuva e o vento

para que uma nova semente
entre pela janela adentro



Murray, Roseana
Receitas de olhar/Roseana Murray; ilustrações Elvira Vigna. - São Paulo: FTD, 1997.- (Coleção falas poéticas)

Receita de se olhar no espelho - Roseana Murray

se olhe de frente
de lado
de costas
de cabeça para baixo
pinte o espelho
de azul dourado vermelho
faça caretas ria sorria
feche os olhos abra os olhos
e se veja sempre surpresa

quem é você?



Murray, Roseana
Receitas de olhar/Roseana Murray; ilustrações Elvira Vigna. - São Paulo: FTD,1997. - (Coleção falas poéticas)

Receita de olhar - Roseana Murray

nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol

faça do seu olhar imensa caravela



Murray, Roseana
Receitas de olhar/ Roseana Murray; Ilustrações Elvira Vigna. - São Paulo:
FTD, 1997. - (Coleção falas poéticas)