segunda-feira, 9 de abril de 2012

quando eu tiver setenta anos - Paulo Leminski

quando eu tiver  setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar o meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência.


Leminski, Paulo. Caprichos e relaxos. São Paulo: Brasiliense, 1985

Fábula - Paulo Henriques Britto

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por germinar
no mesmo exato lugar
sua exata negação.

enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se-
é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.


Britto, Paulo Henriques. Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

acaba que cada um - Antoine Emaz

acaba que cada um
ao menor problema
se muda de si mesmo
para um pouco mais longe
todos os dias
para um pouco mais longe

no máximo a gente se acompanha
forçando o sorriso


Emaz, Antoine. "Boue/Lama"XI. In: Lama, pele. Tradução e posfácio de Júlio Castañon Guimarães.
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

Marianna e Chamilly - Adília Lopes

Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim


Lopes, Adília. Caderno. Lisboa: Et etc.,2007.

domingo, 8 de abril de 2012

As formigas - Eduardo Galeano

Tracey Hill era menina num povoado de Connecticut, e se divertia com diversões próprias de sua idade,
como qualquer outro doce anjinho de Deus no estado de Connecticut ou em qualquer outro lugar deste planeta. 
Um dia, junto a seus companheirinhos de escola, Tracey se pôs a atirar fósforos acesos num formigueiro. Todos desfrutaram daquele sadio entretenimento infantil; Tracey, porém, ficou impressionada com uma coisa que os outros não viram, ou fizeram como se não vissem, mas que a deixou paralisada e deixou nela, para sempre, um sinal na memória: frente ao fogo, frente ao perigo, as formigas separavam-se em casais e assim, de duas em duas, bem juntinhas, esperavam a morte.


Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres/Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.- Porto Alegre: L&PM, 2011.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Janela sobre a palavra/2 - Eduardo Galeano

A letra A tem as pernas abertas.
A M é um sobe desce que vai e vem entre o céu e o inferno.
A O , círculo fechado, asfixia.
A R está evidentemente grávida.
- Todas as letras da palavra AMOR são perigosas - comprova Romy Díaz-Perera.
Quando as palavras saem da boca, ela as vê desenhadas no ar.


Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres/ Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.- Porto Alegre: L&PM,2011.

A pequena morte - Eduardo Galeano

Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu voo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos,e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.



Galeano, Eduardo, 1940-
Mulheres/ Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno.- Porto Alegre: L&PM,2011.