quarta-feira, 11 de julho de 2012

A voz de Deus - Fernando Pessoa

"Com dia teço a noite,
Com noite escrevo o dia...
Ó Universo, eu sou-te!"
(Sombra de luz na bruma fria,
Que é este archote?
Que mão o tem e o guia?)

"Não me chamo o meu nome...
Sou de ti, mundo-não,
Ser mente em ti eu sou-me!"
(De quem esta voz-clarão?
D'O que tem por cognome
O ser da imensidão)


Pessoa, Fernando, 1888-1935.
Poesia, 1902-1917 / Fernando Pessoa; edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. - São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

Dobre - Fernando Pessoa

Peguei no meu coração E pu-lo na minha mão.

Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.


Pessoa, Fernando, 1888-1935.
Poesia, 1902-1917/ Fernando Pessoa; edição Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine.- São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Caminho - Adonis

Caminho e atrás de mim caminham as estrelas
até seu próximo amanhã
o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço
amortecem meus passos, avivam meu sangue.

Não iniciei a trilha, ainda
não vejo nenhum jazigo
caminho até mim mesmo, até
meu próximo amanhã
caminho e atrás de mim caminham as estrelas.


ADONIS. Poemas. Organização e tradução de Michel Sleiman. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

domingo, 8 de julho de 2012

Destino do poeta - Octavio Paz

Palavras? Sim, de ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.


Paz, Octavio; Campos, Haroldo. Transblanco ( em torno a Blanco de Octavio Paz. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

Ontologia - Alex Varella

Existem o mar e o sol.

E além disso,

também existem o sol e o mar do poema.



Varella, Alex. Céu em cima/Mar embaixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Tristeza - Fernando Pessoa

Falo-me em versos tristes,
Entrego-me a versos cheios
De névoa e de luar;
E esses meus versos tristes
São ténues, céleres veios
Que esse vago luar
Se deixa pratear.

Sou alma em tristes cantos,
Tão tristes como as águas
Que uma castelã vê
Perderem-se em recantos
Que ela em soslaio, de pé,
No seu castelo de prantos
Perenemente vê...
Assim as minhas mágoas não domo
Cantam-me não sei como
E eu canto-as não sei porquê.



Pessoa, Fernando,1888-1935.
Poesia, 1902-1917/ Fernando Pessoa; ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine.-São Paulo: Companhia das Letras, 2006.



quinta-feira, 7 de junho de 2012

O pai - Eduardo Galeano

Vera faltou na escola. Ficou o dia inteiro trancada em casa. Ao anoitecer, escreveu uma carta ao pai. O pai de Vera estava muito doente, no hospital. Ela escreveu:
- Peço que você goste de você, que se cuide e se proteja, que se mime, que se sinta, que se ame, que se desfrute. Digo que gosto de você, cuido de você, protejo você, mimo você, sinto você, amo você, desfruto você.
Héctor Carnevale durou mais alguns dias. Depois, com a carta de sua filha debaixo do travesseiro, foi-se embora no sonho.


Galeano, Eduardo, 1940-
Bocas do tempo/ Eduardo Galeano - Porto Alegre: L&PM, 2004.