domingo, 25 de novembro de 2012

Eu queria fazer parte das árvores - Manoel de Barros

Eu queria fazer parte das árvores como os
pássaros fazem.
Eu queria fazer parte do orvalho como as
pedras fazem.
Eu só não queria significar.
Porque significar limita a imaginação.
E com pouca imaginação eu naõ poderia
fazer parte de uma árvore.
Como os pássaros fazem.
Então a razão me falou: o homem não
pode fazer parte do orvalho como as pedras
fazem.
Porque o homem não se transfigura senão
pelas palavras.
E isso era mesmo.


Barros, Manoel de, 1916-
Menino do mato/Manoel de Barros.- São Paulo: Leya, 2010

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ai daqueles... - Paulo Leminski

ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.



Traço de poeta. - 1ª ed. - São Paulo: Global, 2006.- (Antologia de poesias para jovens)

Eu bem sabia - Manoel de Barros

Eu bem sabia que a nossa visão é um ato
poético do olhar.
Assim aquele dia eu vi a tarde desaberta
nas margens do rio.
Como um pássaro desaberto em cima de uma pedra
na beira do rio.
Depois eu quisera também que a minha palavra
fosse desaberta na margem do rio
Eu queria mesmo que as minhas palavras
fizessem parte do chão como os lagartos
fazem.
Eu queria que minhas palavras de joelhos
no chão pudessem ouvir as origens da terra.


Barros, Manoel de, 1916-
Menino do mato / Manoel de Barros. - São Paulo:
Leya, 2010.

Naquele dia - Manoel de Barros

Naquele dia eu estava um rio.
O próprio.
Achei em minhas areias uma concha.
A concha trazia clamores do rio.
Mas o que eu queria mesmo era de me
aperfeiçoar quanto um rio.
Queria que os passarinhos do lugar
escolhessem minhas margens para pousar.
e escolhessem minhas árvores para
cantar.
Eu queria aprender a harmonia dos gorjeios.


Barros, Manoel de, 1916.
Menino do mato / Manoel de Barros. - São Paulo; Leya, 2010.

Criança - Cecília Meireles

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre - e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Meireles, Cecília, 1901-1964
As palavras voam/ antologia poética de Cecília Meireles; organizador Bartolomeu Campos de Queiros-1ªed. - São Paulo: Moderna,2005. -  

domingo, 11 de novembro de 2012

Parte de entrevista de Ferreira Gullar a Revista Veja


     Já fiquei onze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema... Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos.
Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa.
     O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.


                                                               Ferreira Gullar












sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Acho que o quintal onde a gente brincou - Manoel de Barros

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. Mas o que eu queria dizer sobre o nosso quintal é outra coisa (...)eu estava a pensar em achadouros de infâncias. Se  a gente cavar um buraco ao pé de goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos [...].