sábado, 31 de julho de 2010

Pedido da rosa sábia - Cecília Meireles

Olha-me só este instante,
só este instante:
minha linguagem é este aroma,
esta cor, esta veludosa escultura.

Falo-te de mim porque não me fiz:
apareci.

É só por um minuto.
Eu sou a tua imagem reduzida
em tempo e dimensão.

Antes de me entenderes
terei desaparecido:
e não pelo ar ou pelo chão, somente.

Morte da formiga - Cecília Meireles

Levantou-se como um cavalo furioso
e abriu no ar seus bracinhos tênues.

Menor que qualquer letra:
mais fina que qualquer fio.

E eu pensei como seria o sofrimento
naquele corpo mínimo?
Porque sempre se sofre.

E eu pensei que seria o sol que a queimava
no ardente ladrilho.

E aproximei-lhe uma gota d'água
e um grão de terra fresca.
E ela se retorceu entre a água e a terra.
E era um silêncio terrível o da sua pequenez.

Depois caiu vencida.
Menor que um cílio. Menor.
E nem ela certamente
- mas apenas eu, e por quê? -
soube da sua morte.

Alto, vasto, azul,
como era belíssimo o céu
em redor deste mundo!

O amor é o único milagre que existe - Osho

"O amor é o único milagre que existe. O amor é a escada do inferno para o céu. Aprendendo bem o amor, você aprendeu tudo. Perdendo o amor, toda a sua vida está perdida. As pessoas que me perguntam sobre Deus não estão realmente perguntando sobre Deus, mas declarando que não conheceram o que é o amor. Aquele que conheceu o amor conheceu o Amado; o amor é a percepção do Amado. Aquele que pergunta sobre a luz está simplesmente dizendo que é cego. Aquele que pergunta sobre Deus, está dizendo que seu coração não floresceu para o amor.
Deus não é para ser procurado: onde você irá procurá-lo? Ele está em toda a parte; você só tem de aprender a abrir os seus olhos do amor. Uma vez que o amor penetrar em seu coração, Deus está lá. Na emoção do amor está o Amado; na visão do amor está a visão de Deus."

Enloucrescer - Carlos Drummond de Andrade

"Enloucrescer.
Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança.De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passa debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de conto de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido."

A palmeira - Cecília Meireles

Palmeira sem história,
anônima na mata
unida ao verde, a tantas
ramagens recostada
e a seu destino presa,

quando te olho recordo
uma vila distante
de amarelo crepúsculo,
onde os pássaros vinham
pousar na minha mesa;

quando te amo compreendo
que és a sombra daquela
perdida em tarde e névoa
e o amor que por ti sinto
é saudade e tristeza.

Diálogos do jardim - Cecília Meireles

Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.

O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"

Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.

"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"

Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.

" Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"

Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...

E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"

E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.

"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"

E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce,a minha perpétua solidão.

E perguntei ao pássaro:"Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"

E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto."

Desenho quase oriental - Cecília Meireles

Uma borboleta que voa
sobre uma flor que é o seu retrato,
numa árvore,
parece que chama por ela,
parece que adeja o convite
de amarem-se.

Parece que a flor lhe responde,
que é presa, sem asas, que vive
e morre
no ramo. Parece que é triste
não ir pela brisa de amores
bem longe.

Parece que as duas se entendem,
parece que as duas deploram.
Parece.
Mas sempre há uma brisa mais forte
que leva, com asas quebradas,
as pétalas...