sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A árvore - Geir Campos

Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências - que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos.

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo,
E dize-me: há esperança para o homem?


A árvore/Geir Campos. In:Campos, Paulo Mendes(org.) Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1952.

Este texto foi publicado originalmente em: Campos,Geir. Rosa dos rumos. Rio de Janeiro: revista Literária, 1950.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Neste soneto - Paulo Mendes Campos

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma é pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.

A palavra escrita/ Paulo Mendes Campos. Rio de Janeiro/ Hipocampo, 1951.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A planta - Ferreira Gullar

haverá mesmo tanta
diferença
entre mim e a planta
do vaso da sala?

Ao que se percebe
ela é verde
e não fala

Pode ser que ouvido
melhor que o meu
ouça-lhe a voz da seiva
a irrigar-lhe o caule

Ao contrário de mim
( forma pronta )
a planta
se multiplica em folhas
que ela
a cada dia puxa
de si
( do ventre )
como sabres
feito um jogador
a exibir seus naipes

Em alguma parte alguma/ Ferreira Gullar, [apresentação Alfredo Bosi e Antonio Secchin]. - 2ª ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

Inseto - Ferreira Gullar

Um inseto é mais complexo que um poema
Não tem autor
Move-o uma obscura energia
Um inseto é mais complexo que uma hidrelética

Também mais complexo
que uma hidrelética
é um poema
( menos complexo que um inseto)

e pode às vezes
( o poema)
com sua energia
iluminar a avenida
ou quem sabe
uma vida

Em alguma parte alguma/ Ferreira Gullar,[ apresentação Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin]. 2ª ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

Dois poetas na praia - Ferreira Gullar

É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!

Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca leram Drummond nem Mallarmé.
- E lerão meu poema?
pergunta ela.
- Alguém vai ler.
- Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.

E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.

Em alguma parte alguma/Ferreira Gullar,[apresentação Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin]. - 2ª ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

O que se foi - Ferreira Gullar

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Em alguma parte alguma/ Ferreira Gullar; [apresentação Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin]. - 2ª ed.. - Rio de Janeiro: José Olympio,2010.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Aquele menino - 1 - Affonso Romano de Sant'Anna

Saudade de um eu
de que me dão notícia
como do irmão gêmeo
que se perdeu
ou de algo distante:
um primo ou conhecido
que usou um terno meu.

Me dizem
que conversaram com "ele"
ou "eu"
Há quem o tenha tocado
e dele ouvido frases de amor
e pasmo.

Viram-no descendo ruas do interior
pregando nas esquinas
desejando suas vizinhas
depois escalando árvores , edifícios, pirâmides
procurando algo que se perdeu
lendo hieroglifos
na biblioteca de Babel.

Outros o viram grave e irônico opinando
ou desatento olhando para o lado
de dentro
de insolúveis questões.
Para alguns parecia estar apressado
como se fosse buscar o futuro
ou inaugurar o passado.

Gostaria de rever esse menino
que dizem que fui eu.
Então o acolheria
incorporando-me ao que fui
e há muito se perdeu.

Enfim lhe pediria
aceite-me de volta
não sou teu pai
sou filho teu.

Vestígios/Affonso Romano de Sant'Anna.- Rio de Janeiro: Rocco, 2005.