sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissão - Carlos Drummond de Andrade

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro- vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.



Andrade, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:- Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Pássaro - Cecília Meireles

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.



Meireles, Cecília, 1901-1964
Palavras e pétalas/ Cecília Meireles; [organizador Antonio Carlos Secchin].
-Rio de Janeiro: Desiderata, 2008.

Canção dos dias grandes - Gastão Cruz

A tarde não termina
porque o dia se esquece
de correr a cortina
pra que ele próprio cesse

É dia é dia ainda
vamos brincar correr
depois será bem-vinda
a noite que vier

E um frio tão fino
tão pouco já, tão leve
joga com o menino
no crepúsculo breve



A lua no cinema e outros poemas/organização Eucanaã Ferraz. - São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.

[ meus amigos] - Paulo Leminski

meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança calor

meus amigos
quando me dão a mão
deixam na minha
a sua mão



A lua no cinema e outros poemas/ organização Eucanã Ferraz. - São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.

Amigo - Alexandre O'neill

Mal nos conhecemos
inauguramos a palavra "amigo"!

"Amigo" é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
"amigo" é um erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

"Amigo" é a solidão derrotada!

"Amigo" é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil
"amigo" vai ser, é já uma grande festa!



A lua no cinema e outros poemas/ organização Eucanaã Ferraz. - São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.

A canção da primavera - Gastão Cruz

A primavera canta
ouvi a sua voz
o rouxinol espanta-se
de ouvi-la como nós

A primavera canta
vais ouvi-la também
quando um pássaro canta
não se ouve mais ninguém

a primavera é ave
é ela o rouxinol
há pássaro que lave
melhor a luz do sol?



A lua no cinema e outros poemas/ organizador Eucanaã Ferraz. - São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.

[ Na ribeira deste rio] - Fernando Pessoa

Na ribeira deste rio
ou na ribeira daquele
passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
me dá calor ou dá frio.

Vou vendo o que o rio faz
quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz,
numa sequência arrastada,
do que ficou para trás.

Vou vendo e vou meditando,
não bem no rio que passa
mas só no que estou pensando,
porque o bem dele é que faça
eu não ver que vai passando.

Vou na ribeira do rio
que está aqui ou ali,
e do seu curso me fio,
porque, se o vi ou não vi,
ele passa e eu confio.



A lua no cinema e outros poemas/ organização Eucanaã Ferraz. - São Paulo:
Companhia das Letras, 2011.