sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissão - Carlos Drummond de Andrade

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro- vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.



Andrade, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:- Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

2 comentários:

  1. Que lindo esse poema de Drummond. Não conhecia. Adorei o teu espaço!!!

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  2. Obrigada, venha sempre. De fato, o poema é maravilhoso!

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