domingo, 27 de dezembro de 2009

Os poemas - Mario Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
Não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

O Auto-retrato - Mario Quintana

No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas  que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
corrigido por um louco!

Amar - Mario Quintana

Fechei os olhos para não te ver e minha boca para não dizer...E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei...O amor é quando a gente mora um no outro.

Quando eu for, um dia desses... - Mario Quintana

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso.

Quem faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

Somos donos de nossos atos... - Mario Quintana

 Somos donos de nossos atos,
mas não somos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros engaiolados,
sentimentos são pássaros em vôo.

Quem sabe um dia... - Mario Quintana

Quem sabe um dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um  mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois.

Quem sabe um dia... - Mario Quintana

Da felicidade - Mario Quintana

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte,os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

Do amoroso esquecimento - Mario Quintana

Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

O meu amor...

 O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá)
Canta e vai-se embora
Outra nem isso,
Mal chega, vai-se embora
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo
As andorinhas é que mudam. 

O meu amor...

Amor - Mario Quintana

Quando duas pessoas fazem amor
não estão apenas fazendo amor.
Estão dando corda ao relógio do mundo.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Receita de Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
Para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas? )

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta,
não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem que merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Liberdade - Miguel Torga

- Liberdade, que estáis no céu...
Rezava o padre nosso que sabia
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estáis na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estáis em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Pedagogia - Miguel Torga

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende.
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de-ser !

Quase um poema de amor - Miguel Torga

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Viagem - Miguel Torga

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro,
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
( Só nos é concedida
Esta vida
Que temos
e é nela que é preciso
Procurar
 O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Num errante e dada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

A espiral - Miguel Torga

Um dia é suficiente para amar todas as coisas como um deus
e em todas as coisas dar a vida
pelo brilho sereno de um olhar.

Ao amor antigo - Carlos Drummond de Andrade

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar   também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e   amar o inóspito, o cru,
Um vaso sem flor, um chão de ferro ,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave
de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a  uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Amor bastante - Paulo Leminski

Quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante.

Abaixo o além - Paulo Leminski

de dia
céu  com nuvens
ou céu sem

de noite
não tendo nuvens
estrelas
sempre tem.

quem me dera
um céu vazio
azul isento
de sentimento.

Você está tão longe... - Paulo Leminski

Você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo

nem fale em amor
que amor é isto.

Um bom poema leva anos... - Paulo Leminski

Um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

É tudo o que sinto - Paulo Leminski

Inverno
É tudo o que sinto
Viver
É sucinto.

Cantiga para não morrer - Ferreira Gullar

Quando você for embora,
moça branca como a neve
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Despedida - Ferreira Gullar

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão fundas
quanto estes céus brasileiros.

Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.
.

Desencanto - Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento...de desencanto...
Fecha o meu livro, se agora
não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa...remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-  Eu faço versos como quem morre.

Traduzir-se - Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte é estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

OVNI - Ferreira Gullar

Sou uma coisa entre coisas
O espelho me reflete
Eu (meus
olhos )
reflito o espelho

Se me afasto um passo
o espelho me esquece:
reflete a parede
a janela aberta

Eu guardo o espelho
o espelho não me guarda
( eu guardo o espelho
a janela a parede
rosa
eu guardo a mim mesmo
refletido nele):
sou possivelmente
uma coisa onde tempo
deu defeito.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Lua adversa - Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fase de vir para a rua...
Perdição da minha vida
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

Para a manhã - Miguel Torga

Rosa acordada, que sonhaste?
Nas pálpebras molhadas vê-se ainda
Que choraste...
Foi algum pesadelo?
Algum presságio triste?
Ou disse-te algum deus que não existe
Eternidade?
Acordaste e és bela
Vive!
O sol enxugará esse teu pranto
Passado
Nega o presságio com perfume e encanto!
Faz o dia perfeito e acabado!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Gozo e dor - Almeida Garret

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
- Não. Ai! não; falta-me a vida,
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.
Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou,
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida - ou a razão.

Sossega coração... - Fernando Pessoa

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição dos seres.
Mas pobre sonho o que\ só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Sossega coração e adormeça!

Tenho tanto sentimento... - Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Os versos que te fiz - Florbela Espanca

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados  em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Saudade de Manuel Bandeira - Vinícius de Moraes

Não foste apenas um segredo
De poesia e de emoção
Foste uma estrela em meu degredo
Poeta, pai! áspero irmão.

Não me abraças-te só no peito
Puseste a mão na minha mão
Eu, pequenino - tu, eleito
Poeta, pai! áspero irmão.

Lúcido, alto e ascético amigo
De triste e claro coração
Que sonhas tanto a sós contigo
Poeta, pai, áspero irmão?

Resposta a Vinícius - Manuel Bandeira

Poeta sou; pai, pouco; irmão mais.
Lúcido sim; eleito, não.
E bem triste de tantos ais
Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.
Talvez com me bastar, feliz
- Ah feliz como jamais fui! -
Arrancando do coração
- Arrancando pela raiz -
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

O rio - Manuel Bandeira

Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem  mágoa
Nas profundidades tranquilas.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Tu... - Pablo Neruda

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Não te amo como se fosses rosa de sal... - Pablo Neruda

Não te amo como se fosses rosa de sal, topázio
ou seta de cravo que propagam o fogo:
amo-te como se amam certamente coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.

Amo-te como a planta que não floriu e tem
dentro de si, escondida, a luz das flores,
e, graças ao teu amor, vive obscuro em meu corpo
o denso aroma que subiu da terra.

Amo-te sem saber como, nem quando, nem onde,
amo-te directamente sem problemas nem orgulho:
amo-te assim porque não sei amar de outra maneira,

a não ser deste modo em que nem eu sou nem tu és,
tão perto que a tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com meu sono.

Amar é a única inocência... - Fernando Pessoa por Alberto Caeiro

(...)
Creio no mundo como um malmequer,
Porque o vejo.    
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Para que se justifique a nossa vida... - Natália Correia

(...)
Para que se justifique a nossa vida
É preciso que alguém a invente em nós.
Os que nunca inspiraram um poema
São as únicas pessoas sós.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Vinícius de Moraes

Não maltrate um coração que dedicou ao seu sorriso as suas batidas !

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Vôo - Cecília Meireles

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicores,
as palavras voam.
Bando azul de andorinhas,
bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas.
Como escuros morcegos
como negros abutres,
as palavras voam.

Oh! alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós
as palavras voam.

E às vezes pousam.

Anatomia - Cecília Meireles

É triste ver-se o homem por dentro:
tudo arrumado, cerrado, dobrado
como objetos num armário.

A alma , não.

É triste ver-se o mapa das veias,
e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios
como por obscuras aldeias
indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.

Mas a alma?

É triste ver-se a elétrica floresta
dos nervos: para estrelas de olhos e lágrimas,
para a inquieta brisa da voz,
para esses ninhos contorcidos do pensamento.

E a alma?

É triste ver-se que de repente se imobiliza
esse sistema de enigmas,
de inexplicado exercício,
antes de termos encontrado a alma.

Pela alma choramos.
Procuramos a alma.
Queríamos alma.

Canções - De que são feitos os dias? - Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
-De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Canção quase melancólica - Cecília Meireles

Parei as águas do meu sonho
para teu rosto se mirar.
Mas só a sombra dos meus olhos
ficou por cima, a procurar...

Os pássaros da madrugada
não têm coragem de cantar,
vendo o meu sonho interminável
e a esperança do meu olhar.

Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?

Quando vierem fechar os meus olhos,
talvez não se deixem fechar.
Talvez pensem que o tempo volta,
e que vens, se o tempo voltar.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

História de uma letra - Cecília Meireles

Muita gente me pergunta se deixei de escrever o meu sobrenome com letra dobrada devido à reforma ortográfica; e quando estou com preguiça de explicar, digo que sim. Mas hoje tomo coragem, abalanço-me a confessar a verdade, que talvez não interesse senão aos meus possíveis herdeiros.
A verdade nunca é simples, como se imagina. E em primeiro lugar, devo dizer que o meu sobrenome simplificado só vale na literatura. Nos documentos oficiais prevalece a forma antiga, e eu por mim gosto tanto da tradição que não me importava nada carregar um ípsilon, um th, todas as atrapalhações possíveis que enrugam e encarquilham  um idioma.
Por outro lado, as reformas ortográficas são sempre tão arrevesadas que já perdi as esperanças de estar algum dia completamente em condições de escrever sem erros, descansando assim no tipógrafo e no revisor, que são os grandes responsáveis pelas nossas faltas e pelas nossas glórias. Não foi, portanto, por afeição às reformas  que sacrifiquei uma letra do meu nome. A história é mais inverossímil.
Todos na vida atravessamos certas crises. Dever-se-ia mesmo escrever sobre a gênese, desenvolvimento, apogeu e fim das crises. Se uma pessoa está sem emprego, o natural é que se empregue. Se está doente, o natural é que morra ou se cure. Mas o fenômeno da crise é importante precisamente por ser o contrário do natural. De modo que se a pessoa está desempregada, não há maneira de arranjar emprego, e se está doente não há maneira de se curar, etc...
As crises são muito variadas. Há crises sentimentais, econômicas, de inspiração, de talento, de prestígio - e o povo classifica essa situação, que ele, em sua sabedoria, já observou, com o fácil nome de azar.
O azar não é lógico. Isso é que o torna desesperador. A pessoa sai de casa, bem com a sua consciência, com as faculdades mentais em perfeita ordem, os músculos, os nervos, tudo bem governado, atravessa a rua como um cidadão correto, observando o sinal, e quando chega do outro lado, apanha na cabeça um tijolo que um operário, inocente, deixou cair do sétimo andar de uma construção.
Naturalmente, todo o mundo tem refletido sobre as razões secretas dessas coisas inexplicáveis. E foi assim que, com o correr do tempo, se chegou à caracterização de um certo número de fatos e objetos que servem de prenúncio ao azar: espelhos quebrados, relógios parados, sal entornado na mesa, sapato emborcado, tesoura aberta, gato preto, mariposas, sexta-feira dia treze, mês de agosto, gente canhota e estrábica, vestido marrom, para só falar dos principais.
Penetrando mais no estudo de todas essas supertições, pessoas entendidas têm procurado explicá-las pelas correlações existentes com as crenças do paganismo, estas por sua vez baseadas no empirismo e na ignorância dos nossos antepassados, e assim por diante, o que não impede que as pessoas ainda hoje se benzam, quando bocejam, para que o demônio não lhes entre pela boca; e não cruzem as mãos, quando se cumprimentam, para não atrapalharem algum matrimônio, e não se deitem com os pés para a rua, e não façam muitas outras coisas, só pelo medo das suas consequências ocultas.
Outras pessoas, igualmente entendidas, dão rumo diverso aos seus estudos, descobrem o entrelaçamento das causas e efeitos universais, chegam até a afirmar que tudo quanto nos acontece nesta encarnação é fruto remoto de encarnações anteriores, e respeitam o que diz um provérbio oriental - que o simples roçar da roupa de um passante, na nossa roupa, é indício de alguma proximidade de vidas, em tempos imemoriais.
E há os que seguem o caminho dos astros, e com uma circunferência, umas retas, uns planetas, uns cálculos, dizem e predizem os nossos destinos,com todas as suas inesperadas trajetórias.
E há os que lêem nas linhas das mãos, e contam as nossas viagens, os nossos padecimentos de fìgado, o que vamos fazer daqui a vinte anos, e o minuto em que empalidece a nossa estrela...
Está claro que creio em tudo isso. Eu justamente creio em tudo. Creio até no contrário disso. A minha faculdade de crer é ilimitada.Não compreendo por que as pessoas crêem numas coisas e noutras não. Tudo é crível. Principalmente o incrível. Não estou fazendo paradoxo. A vida é que já é por si mesma paradoxal, desde que seja vista não apenas pela superfície.
Ora, uma vez, todas as coisas começaram a correr contra mim. Fazendo a mais profunda e leal introspecção, estou bem certa de que não merecia tanto. Se punha roupa branca, chovia; se precisava ver a hora, o relógio estava parado; muitas coisas pequenas, assim e outras maiores, já com intervenção humana, e que, por isso, não é necessário contar.
Então, considerando que tal concordância de acontecimentos desagradáveis devia ter uma razão secreta, pus-me a procurá-la.
Ao contrário do que geralmente se faz, comecei por atribuir a mim mesma a razão dos meus males. É certo que todos temos muitos defeitos. Mas nunca me dei ao luxo de ter tantos que justificassem a conspiração que se fazia contra mim.
Admitida a minha inocência, passei ao exame das circunstâncias que por acaso estivessem sob a minha responsabilidade. Nem espelho partido, nem vestido marrom nem gato preto nem número fatídico na porta.
E assim descendo de observação em observação, e consultando algum conhecido - e os nossos conhecidos sempre sabem essas coisas ocultas e se não nos ajudam com as suas luzes é pela timidez em não acreditarem o momento propício - passei a analisar o meu nome.
Esqueci de dizer que estava disposta a todos os despojamentos. Se a culpa fosse de algum mau sentimento, de alguma ação malvada, eu me castigaria energicamente. E até para me estimular recordava o exemplo daquela senhora americana que arrancou um olho e cortou a mão, convencida de que esses dois fragmentos do seu corpo estavam estragando a sua alma.
Foi nessa ocasião que me  explicaram o valor cabalístico das letras, e a razão por que muitas pessoas mudam de nome, trocando aquele que lhes foi dado por outro em que haja uma combinação de valores mais favorável aos seus destinos.
Todos os conhecimentos têm uma profunda sedução. Quem conseguisse saber tudo ficava igual a Deus. Por isso é que muitos são de opinião que se saiba o menos possível, para não ter a mesma sorte de Eva, que logo no princípio do mundo estragou o Paraíso com o pecado do saber.
Digo isto porque um tratado de biologia me atrai com a mesma força que um volume de ciências ocultas, e os números e as letras me parecem tão organizados, tão sensíveis, tão vivos, tão poderosos, enfim, como um animal, uma planta, um átomo.
Naturalmente, desmontei o meu nome, peça por peça, calculei, pesei, refleti, devo ter chegado a alguma conclusão de que já não me lembro, e não tenho a impressão de que os meus cálculos fossem assim desfavoráveis. Mas pelo sim, pelo não, como havia uma letra disponível, achei melhor sacrificar essa letra.
Há os que sacrificam os filhos, os carneiros, as aves, e há os que sacrificam o seu coração. Sacrifiquei o meu. Porque eu gostava de todas as minhas letras, fervorosamente. Ter de cortar uma, não foi assim tão fácil como as reformas ortográficas ordenam. Uma letra é um signo, é uma coisa misteriosa que as gerações vêm carregando consigo, modificando de longe em longe, por mão inexperiente, por súbito esquecimento, por ignorância de algum escriba emprestado.
Deu-me um trabalho muito grande, ficar sem essa letra. Quando olhava para o meu nome sem ela, sentia como se me faltasse um pedaço, como se estivesse realmente mutilada, sem a mão ou sem o olho. Consolava a letra perdida. Escrevia-a sozinha, do lado, sorria-lhe, contava-lhe coisas, para distraí-la. Tudo era muito infantil e muito triste. A pobrezinha ficava para trás, e dava-me saudade.
Recapitulando estas coisas, sinto-me entristecer, e preciso recobrar a minha força de vontade para não alterar outra vez o sobrenome.
Afinal, como último trabalho convincente, estabelecemos este acordo. A letra não ficaria perdida: seria usada nos documentos oficiais, nesses lugares respeitáveis em que a firma é a garantia da nossa pessoa recebendo e pagando os lugares que nos vemos que merecem a consagração e a estima unânimes dos nossos colegas humanos.
Quanto as coisas literárias, essas efêmeras coisas pelas quais vamos morrendo dia a dia, não são assim de tal modo graves que precisem da firma autêntica, daquela firma por que os juízes nos podem perguntar um dia, brandindo um papel pavoroso e fulminante: "Dize, bandido, foste tu que assinaste este documento?" Não,as coisas literárias não chegam a esse ponto. O mais que nos pode acontecer é tirarem o nome que escrevemos no fim e substituírem-no por outro, sem juiz, sem fulminação, sem defesa...
Isto posto, a letra abandonada e eu nos abraçamos ternamente, e nos separamos. Como era uma letra suave, terá querido dizer com o seu romantismo: " Quero apenas que sejas menos infeliz. Acompanhei-te  durante tanto tempo! Tiveste tanta dificuldade em aprender a escrever-me...Pensavas com inocência no mistério das letras dobradas ... Sentias orgulho, na escola, por essa letra dobrada no nome...
Mas talvez eu esteja pesando demais na tua vida. Não fiques triste. Adeus"
Fiquei muito triste. Faltava-me a letra. Já não era como se me faltasse um pedaço de mim, - mas, um parente, um amigo extraordinário.
A minha vida, porém, mudou tanto que, por mais saudade que me venha dessa letra perdida, não me animo a fazê-la voltar.
E está feita a confissão. Como se vê, uma história longa, que não se pode repetir a cada instante. Principalmente porque é uma história íntima, e ninguém deve cortar as letras do seu nome só por ter visto outras pessoas fazê-lo. E fica explicado para sempre que assino deste modo por motivos sobrenaturais, fantásticos, como quiserem, mas não pela reforma ortográfica, aliás muito cautelosa com os nomes próprios, respeitando-os tanto quanto me parece deverem ser respeitados, principalmente pelos mistérios que dentro deles vão navegando.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Coração - Guilherme de almeida

Lembrança, quanta lembrança
Dos tempos que lá se vão!
Minha vida de criança,
Minha bolha de sabão!

Infância, que sorte cega,
Que ventania cruel,
Que enxurrada te carrega,
Meu barquinho de papel?

Como vais,como te apartas,
E que sozinho que estou!
Ó meu castelo de cartas,
Quem foi que te derrubou?

Tudo muda, tudo passa
Neste mundo de ilusão;
Vai para o céu a fumaça,
Fica na terra o carvão.

Mas sempre, sem que te iludas,
Cantando num mesmo tom,
Só tu, coração, não mudas
Porque és puro e porque és bom! 

De que são feitos os dias? - Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
 - De pequenos  desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
 - do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em  duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Lua adversa - Cecília Meireles

Tenho fases como a lua.
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vem,
no secreto calendário
que um astrólogo  arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!

Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua....)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia ,
o outro desapareceu...

domingo, 6 de dezembro de 2009

Felicidade - Guilherme de Almeida

Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada!"
E eu respondi: "Bom dia, filha morta!"

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse: "Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!"

E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!

O ano passado - Carlos Drummond de Andrade

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Canto de Natal - Manuel Bandeira

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer o bem.

Nasceu sobre palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

Versos de Natal - Manuel Bandeira

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Uma história de Natal - Moacyr Scliar

  A voz de Belém de Nazaré foi um dos primeiros jornais na história da humanidade; se ainda estivesse em circulação, estaria completando 2000 anos. Mas a verdade é que não durou mais que alguns números.
O jornal não era impresso; a tecnologia para isso não havia sido inventada. Os cem exemplares que constituíam a tiragem eram copiados a mão, em pergaminho, por uma numerosa equipe de escribas. Os leitores eram poucos, mas selecionados: o rei Herodes, por exemplo, estava entre os assinantes, bem como autoridades romanas.
O proprietário, que era também o editor e o único repórter, esforçava-se por obter o que hoje seria denominado de furos de reportagem. Não era muito fácil. Belém de Nazaré era uma cidade pequena e nada tinha a ver com o poder. O homem sonhava  com um grande acontecimento, que lhe permitisse colocar uma manchete em letras garrafais."É o fim do Império Romano", seria uma interessante, mas ainda pouco provável. De modo que pressionava continuamente seus informantes a caçarem novidades.
Certa manhã, um deles veio procurá-lo com uma notícia verdadeiramente sensacional: três reis tinham aparecido em Belém, soberanos vindos de locais longínquos. A princípio o jornalista não acreditou: três reis em Belém? Três? Decidiu imediatamente procurá-los.
Quando os encontrou, já estavam de partida e não queriam falar à imprensa. Mas ele insistiu e os potentados acabaram contando: tinham vindo à cidade , guiados por uma estrela, para ver um bebê que acabara de nascer e que mudaria os rumos do mundo.
Ele não acreditou, claro. Três reis andariam quilômetros e quilômetros por causa de uma criança? Absurdo.Certamente havia uma história por trás daquela viagem, e essa história só podia ser uma intriga política. Talvez os três reis estivessem tramando uma aliança para dominar a região. Talvez estivessem em vias de estabelecer um novo poder. Os soberanos, contudo, insistiam em sua versão.
Frustrado embora, não deixou de escrever uma matéria a respeito, falando no mistério político representado pela vinda dos três monarcas. Não se deu, claro, ao trabalho de ir à manjedoura onde eles diziam ter estado.
Mas mesmo que fosse lá , e mesmo que visse o recém-nascido, não daria importância ao fato. Pobres às vezes nascem em lugares estranhos. Como uma manjedoura em Belém de Nazaré.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Essa história de Papai Noel... - Cecília Meireles

Todas as crianças amanheceram ontem preocupadas com o que iam encontrar nos sapatos. E, como todos sabem, apesar de a data celebrar o nascimento de um dos grandes defensores da igualdade humana, os resultados verificados na prova prática dos sapatos foram os mais desiguais possível.
Não é isso que vamos pretender resolver aqui, embora acreditemos que a obra da educação tem horizontes infinitos, e esse é um dos problemas que ela está incumbida de pôr nos devidos termos.
Vamos considerar apenas essa história do Papai Noel, personagem maravilhoso que entra invisível   no quarto das crianças para lhes pôr presentes nos sapatos.
Se estudarmos o caso, como recomenda Piaget, na sua verificação das representações infantis, acompanhando e favorecendo a revelação desejada sem a sugerir, para não a viciar, observaremos que as crianças não possuem conceito definido acerca do personagem fabuloso da noite de Natal. À alegria turbulenta e absorvente dos brinquedos a receber, ou recebidos, associam apenas a imagem convencional do velho friorento, de roupa vermelha orlada de arminho, barba branca, saco às costas, que as revistas e os jornais reproduzem, e a família mostra nos anúncios, sorrindo com malícia da inocência dos pequeninos.
Eu creio que o território da imaginação infantil tem uma localização à parte, nas suas faculdades. Está isento de consequências práticas, como se as imaginárias estivessem previamente a salvo de interferências da realidade e do contato com elas. Assim, as histórias maravilhosas parece-me que se acumulam, junto com os sonhos e as visões indefinidas da criança, uma região isolada da sua vida interior, não são absorvidas do mesmo modo que os fatos concretos; referem-se a interesses de outra espécie e não correspondem a uma atividade exterior. Por isso, também, é que, através do meu convívio com as crianças, inclino-me a supor que a ficção do Papai Noel é, para a infância , de natureza vaga e imprecisa, como que diluída numa generalização, e dissipada facilmente pela realidade nítida dos brinquedos. As crianças até cinco ou seis anos não tem preocupação da existência desse personagem, aceitam-no como um nome, uma palavra, - como os nomes dos meses e dos dias.
Avanço isto com a máxima precaução: e gostaria que mães e professoras procurassem interpretar bem a noção de seus filhos e alunos, a esse respeito.
Mas, depois dos seis anos, nos dias de hoje, dificilmente uma criança acredita no personagem misterioso do Natal. E, quando as assalta a primeira dúvida, correm ao papai e à mamãe para lhes perguntarem a verdade. Aí é que se comete o erro lamentável. Porque todos os pais estão convencidos - e com as melhores intenções - de que fazem bem à criança dizendo-lhes que existe esse homem sobrenatural. Muitos, eu bem sei que já não querem dizer a verdade porque tem pena de arrancar da criança o que eles supõem ser uma deliciosa ilusão, uma autêntica forma de felicidade - quando nunca se detiveram a analisar como é que funciona a alma infantil e a repercussão interior dessas coisas!
Outros sustentam a ficção  com alegria, certos de que estão agindo muito normalmente, como todo o mundo faz...(O conforto da rotina...)
Dá-se, então, o seguinte: ou dizem a verdade à criança, ou ela malgrado o segredo, adivinha-a. Mas, de qualquer das duas maneiras, a criança compreende subitamente: que se pode dizer a alguém uma coisa que não é verdadeira...Que se pode alimentar essa falsidade anos a fio, repetidas vezes, com gravidade e convicção...Que os pais, os parentes, os amigos mais íntimos e mais queridos, isto é, todos aqueles em que ela confia, a quem se abandona, com a sua inocência e a sua pureza são os mesmos que sustentam essas coisas mentirosas...
Essa é que é a grande desilusão das crianças no dia que descobrem a invenção do Papai Noel...Não é a tristeza de perderem uma coisa maravilhosa...E, aliás, há coisas realmente maravilhosas, insondáveis, que se podem dar à criança, se a questão é de coisas sutis... - o movimento dos mundos, a fecundidade da terra, as origens da vida, as cores, todas as leis físicas.
O desencanto, o mudo desencanto dos olhos das crianças que sabem da verdade do Papai Noel é a amargura do contato com os homens, uma presciência da deformação da vida, uma tristeza de ter sido assunto de mofa...Uma consciência de humilhação, e um sentimento de desconfiança...Esse é o ruim presente que os pais colocam nos sapatinhos dos filhos...

(Rio de Janeiro, Diário de Notícias,26 de Dezembro de 1930) 

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Frases -Clarice Lispector

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido.Eu não: quero uma verdade inventada."

" Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir.Não sou pretensiosa.Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando".

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o´defeito que sustenta nosso edifício inteiro"

"Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Pergunte, sem querer a resposta como estou perguntando. Não se preocupe em "entender". Viver ultrapassa todo o entendimento."

"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio dos outros."

'Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas as vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Carta a Andréa Azulay - Clarice Lispector


Rio, 7 de julho de 1974


Andréa de Azulay, que é minha filha espiritual:


Você sabe muita coisa, minha colega. Mas de qualquer jeito vou lhe dar umas dicas para a vida e outras para escrever.

Sugestões de vida:

- Você sabe se espreguiçar? É tão bom. Quando você se sentir cansadinha (você nunca se cansa porque é uma borboleta alegre) ou quando quiser sentir uma coisa boa para o seu corpinho, então espreguice-se. É assim: espiche os braços e as pernas ao último máximo, tanto quanto puder. Fique assim um momento. Em seguida largue-se de repente, relaxe o corpo como se este fosse um trapo. Você vai ver como é gostoso. A gente ganha um corpo novo.

- Você gosta de comer coisa boa? Então experimente fios de ovos com creme de leite Nestlé. A gente não tem vontade de acabar nunca.

- Pergunte a seu pai e a sua mãe se eles deixam o seguinte: esquente uma colher de sobremesa de vinho tinto, esquente uma xícara de café com açúcar, misture tudo e beba devagarzinho. Dá um gosto bom no coração.

- Experimente mocotó. Demora a cozinhar e leva tempero. Mande fazer um pirão com o caldo. É forte, é potente, dá força humana. É capaz de você odiar!!!!!!

Sugestões para escrever:

- Você não precisa de nada, já sabe quase tudo. Mas vou lhe dar algumas idéias:

- Não descuide da pontuação. Pontuação é a respiração da frase. Uma vírgula pode cortar o fôlego. É melhor não abusar de vírgulas. O ponto de interrogação e o de exclamação use-os quando precisar: são válidos. Cuidado com reticências: só as empregue em caso raro. Como depois de um suspiro. Quanto ao ponto e vírgula, ele é um osso atravessado na garganta da frase. Uma minha amiga, com quem falei a respeito da pontuação, acrescentou que ponto e vírgula é o soluço da frase. O travessão é muito bom para a gente se apoiar nele. Agora esqueça tudo o que eu disse.

- Cuidado com o "que", muitos ques numa mesma frase atropela a gente. Você pode tomar a liberdade que eu já tomei, isto é: começar uma frase com "que". Mas esse meu recurso já foi por demais imitado, eu já não uso mais, só às vezes.

Quando você fizer sucesso fique contentinha mas não contentona. É preciso ter sempre uma simples humildade tanto na vida quanto na literatura.

Afago os seus belos cabelos.


Clarice



Quer me mandar o seu retrato?

(Esta carta foi escrita antes de você me mandar o seu retrato)

sábado, 7 de novembro de 2009

Carta à Andréa Azulay - Clarice Lispector


Rio, 27 de junho de 1974



À bela princesa Andréa de Azulay,



dou-lhe de presente este objeto.Espero que você goste dele. Seu nome é móbile. Mas eu lhe dei sete nomes. O primeiro: la donna é mobile qual piuma ao vento (a mulher é volúvel como pluma ao vento). O segundo nome é: vertigem. O terceiro é: ano 2000. O quarto é: sussurros delicadíssimos. O quinto é: suspiros. O sexto é: pássaro azul. O sétimo é: Andréa de Azulay.

Quero lhe dizer, minha querida coleguinha, que a mais bela música do mundo é o silêncio interestrelar. E me desculpe: não posso ficar sozinha contigo porque senão nasce uma estrela no ar.

Você precisa saber que já é uma escritora. Mas nem ligue, faça de conta que nem é. Eu lhe desejo que você seja conhecida e admirada só por um grupo delicado embora grande de pessoas espalhadas pelo mundo. Desejo-lhe que nunca atinja a cruel popularidade porque esta é ruim e invade a intimidade sagrada do coração da gente. Escreva sobre ovo que dá certo. Dá certo também escrever sobre estrela. E sobre a quentura que os bichos dão a gente. Cerque-se da proteção divina e humana, tenha sempre pai e mãe - escreva o que quiser sem ligar para ninguém. Você me entendeu?

Um beijo nas suas mãos de princesa.



Clarice

Dois modos - Clarice Lispector

Como se eu procurasse não aproveitar a vida imediatamente, mas só a mais profunda, o que me dá dois modos de ser: em vida, observo muito, sou"ativa" nas observações, tenho o senso do ridículo, do bom humor, da ironia, e tomo um partido. Escrevendo, tenho observações "passivas", tão interiores que "se escrevem" ao mesmo tempo em que são sentidas quase sem o que se chama de processo. É por isso que no escrever eu não escolho, não posso me multiplicar em mil, me sinto fatal a despeito de mim.

Canção - Cecília Meireles


Ó flores do verde pino,

sempre é tempo de esperar!

Mas nós temos a certeza

de que aquilo que esperamos

não se acha em nenhum lugar...


Não tem raízes nem ramos,

não é do céu nem do mar.

Não tem nome - é só destino.

E é toda a nossa estranheza,

sabendo-o tanto , esperar...

Canção de Outono - Cecília Meireles


Perdoa-me, folha seca,

não posso cuidar de ti.

Vim para amar neste mundo,

e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores

pelas areias do chão,

se havia gente dormindo

sobre o próprio coração?


E não pude levantá-la!

Choro pelo que não fiz.

E pela minha fraqueza

é que sou triste e infeliz.

Perdoa-me, folha seca!

Meus olhos sem força estão

velando e rogando àqueles

que não se levantarão...


Tu és a folha de outono

voante pelo jardim.

Deixo-te a minha saudade

- a melhor parte de mim.

E vou por este caminho,

certa de que tudo é vão.

Que tudo é menos que o vento,

menos que as folhas do chão...

Questão Pessoal - Ferreira Gullar


Não interessa

a ninguém

(talvez)

isso

de que já falei

que o poema se nega

a ser poema.


Não interessa

talvez

porque se a poesia

é universal

o poema é

uma questão pessoal

(de mim comigo

de voz comigo

de voz

que não quer voar

não quer

saltar

acima

do rio escuro,

prateada!)

essa palavra avesso esse

verso

espesso mais que pelo

essa pele-

palavra

que envolve a voz

e voa ao revés

tão rente a meu corpo

feito um sopro-

o poema

que em si mesmo se solve

(em seu mel).

Lapa de Bandeira - (quinta -rima) - Vinícius de Moraes

Existia, e ainda existe
Um certo beco na Lapa
Onde assistia, não assiste
Um poeta no fundo triste
No alto de um apartamento
Como no alto de uma escarpa.

Em dias de minha vida
Em que me levava o vento
Como uma nave ferida
No cimo da escarpa erguida
Eu via uma luz discreta
Acender serenamente.

Era a ilha da amizade
Era o espírito do poeta
A buscar pela cidade
Minha louca mocidade
Como uma nave ferida
Perambulando patética.

E eu ia e ascensionava
A grande espiral erguida
Onde o poeta me aguardava
E onde tudo me guardava
Contra a angústia do vazio
Que embaixo me consumia.

Um simples apartamento
Num pobre beco sombrio
Na Lapa, junto ao convento...
Porém, no meu pensamento
Era o farol da poesia
Brilhando serenamente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Há um nome que nos estremece - Cecília Meireles

Há um nome que nos estremece

como quando se corta a flor

e a árvore se torce e padece



Há um nome que alguém pronuncia

sem qualquer alegria ou dor,

e que, em nós, é dor e alegria.



Um nome que brilha e que passa,

que nos corta em puro esplendor,

que nos deixa em cinza e desgraça.



Nele se acaba a nossa vida,

porque é o nome total do amor

em forma obscura e dolorida.



Há um nome levado no vento.

Palavra.Pequeno rumor

entre a eternidade e o momento.

trecho de "Os Sertões" - Euclides da Cunha

...O vaqueiro criou-se em uma intermitência, raro perturbada, de horas felizes e horas cruéis, de abastança e misérias - tendo sobre a cabeça, como ameaça perene, o sol, arrastando de envolta no volver das estações, períodos sucessivos de devastações e desgraças.
Atravessou a mocidade numa intercadência de catástrofes.
Fez-se homem, quase sem ter sido criança.
Salteou-o, logo, intercalando-lhe agruras nas horas festivas da infância, o espantalho das secas no sertão.Cedo encarou a existência pela sua face tormentosa. É um condenado à vida.
Compreendeu-se envolvido em combate sem tréguas exigindo-lhe imperiosamente a convergência de todas as energias.

Fez-se forte, esperto, resignado e prático.
Aprestou-se, cedo, para a luta.

O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o de guerreiro antigo exausto da refrega.
As vestes são uma armadura.
Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro;calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado - é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo...

...Reflete, nestas aparências que se contrabatem, a própria natureza que o rodeia - passiva ante o jogo dos elementos e passando, sem transição sensível, de uma estação à outra, da maior exuberância à penúria dos desertos incendidos, sob o reverberar dos estios abrasantes.
É inconstante como ela
É natural que o seja.
Viver é adaptar-se.
Ela o talhou à sua imagem: bárbaro, impetuoso, abrupto...

Narciso e Narciso - Ferreira Gullar

Se Narciso se encontra com Narciso

e um deles finge

que ao outro admira

(para sentir-se admirado),

o outro

pela mesma razão finge também

e ambos acreditam na mentira.



Para Narciso

o olhar do outro, a voz

do outro, o corpo

é sempre o espelho

em que ele a própria imagem mira.

E se o outro é

como ele

outro Narciso,

é espelho contra espelho:

o olhar que mira

reflete o que o admira

num jogo multiplicado em que a mentira

de Narciso a Narciso

inventa o paraíso

E se amam mentindo

no fingimento que é necessidade

e assim

mais verdadeiro que a verdade.



Mas exige, o amor fingido,

ser sincero

o amor que como ele

é fingimento.

e fingem mais

os dois

com o mesmo esmero

com mais e mais cuidado

- e a mentira se torna desespero.

Assim amam-se agora

se odiando.



O espelho

embaciado,

já Narciso em Narciso não se mira:

se torturam

se ferem

não se largam

que o inferno de Narciso

é ver que o admiravam de mentira.

domingo, 1 de novembro de 2009

Canção da tarde no campo - Cecília Meireles


Caminho no campo verde,

estrada depois de estrada.

Cercas de flores, palmeiras,

serra azul, água calada.


Eu ando sozinha

no meio do vale.

Mas a tarde é minha.


Meus pés vão pisando a terra

que é a imagem da minha vida:

tão vazia, mas tão bela,

tão certa, mas tão perdida!


Eu ando sozinha

por cima de pedras.

Mas a flor é minha.


Os meus passos no caminho

são como os passos da lua:

vou chegando,vais fugindo,

minha alma é a sombra da tua.


Eu ando sozinha

por dentro de bosques.

Mas a fonte é minha.


De tanto olhar para longe,

não vejo o que passa perto.

Subo monte, desço monte,

meu peito é puro deserto.


Eu ando sozinha,

ao longo da noite.

Mas a estrela é minha.

Aprendizado - Ferreira Gullar


Do mesmo modo que te abriste à alegria

abre-te agora ao sofrimento

que é fruto dela

e seu avesso ardente.


Do mesmo modo

que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela

e te achaste

nessa perda

deixa que a dor se exerça agora

sem mentiras

nem desculpas

e em tua carne vaporize

toda ilusão


que a vida só consome

o que a alimenta.

Aprendizado - Ferreira Gullar

Canção Suspirada - Cecília Meireles


Por que desejar libertar-me,

se é tão bom não ver o teu rosto,

se ando em meu sonho como, num rio,

alguém que é feliz e está morto?


Por que pensar em qualquer coisa,

se tudo está sobre a minha alma:

vento, flores, águas, estrelas,

e músicas de noite e albas?


Nos céus em sombra há fontes mansas

que em silêncio e esquecida bebo.

Flui o destino em minha boca

e a eternidade entre os meus dedos...


Por que fazer o menor gesto,

se nada sei, se nada sofro,

se estou perdida em mim, tão perdida

como o som da voz no seu sopro?

Pintura - Ferreira Gullar

Eu sei que se tocasse
com as mãos aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos.

Olhar - Ferreira Gullar


O que eu vejo

me atravessa

como ao ar

a ave


o que eu vejo passa

através de mim

quase fica

atrás de mim


O que eu vejo

- a montanha por exemplo

banhada de sol -

me ocupa

e sou então apenas

essa rude pedra iluminada

ou quase

se não fora

saber que a vejo.

Cantiga - Cecília Meireles


Bem-te-vi que estás cantando


nos ramos da madrugada,


por muito que tenhas visto,


juro que não viste nada.




Não viste as ondas que vinham


tão desmanchadas na areia,


quase vida, quase morte,


quase corpo de sereia...




E as nuvens que vão andando


com marcha e atitude de homem,


com a mesma atitude e marcha


tanto chegam como somem.




Não viste as letras que apostam


formar idéias com o vento...


E as mãos da noite quebrando


os talos do pensamento.




Passarinho tolo, tolo,


de olhinhos arregalados...


Bem-te-vi, que nunca viste


como os meus olhos fechados...

Onda - Cecília Meireles


Quem falou de primavera

sem ter visto o teu sorriso,

falou sem saber o que era.



Pus o meu lábio indeciso

na concha verde e espumosa

modelada ao vento liso:


tinha frescuras de rosa,

aroma de viagem clara

e um som de prata gloriosa.


Mas desfez-se em coisa rara:

pérolas de sal tão finas

- nem a areia as igualara!


Tenho no meu lábio as ruínas

de arquiteturas de espuma

com paredes cristalinas...


Voltei aos campos de bruma,

onde as árvores perdidas

não prometem sombra alguma.


As coisas acontecidas,

mesmo longe, ficam perto

para sempre e em muitas vidas:


mas quem falou de deserto

sem nunca ver os meus olhos...

- falou, mas não estava certo.

sábado, 31 de outubro de 2009

Uma Nordestina - Ferreira Gullar


Ela é uma pessoa

no mundo nascida.

Como toda pessoa

é dona da vida.


Não importa a roupa

de que está vestida.

Não importa a alma

aberta e ferida.

Ela é uma pessoa

e nada a fará

desistir da vida.

nem o sol de inferno

a terra ressequida

a falta de amor

a falta de comida.

É mulher é mãe:

rainha da vida.


De pés na poeira

de trapos vestida

é uma rainha

e parece mendiga:

a pedir esmolas

a fome a obriga.


Algo está errado

nesta nossa vida:

ela é uma rainha

e não há quem diga.







Detrás do rosto - Ferreira Gullar


Acho que mais me imagino

do que sou

ou o que sou não cabe

no que consigo ser

e apenas arde

detrás desta máscara morena

que já foi rosto de menino.


Conduzo

sob minha pele

uma fogueira de um metro e setenta de altura.


Não quero assustar ninguém.

Mas se todos se escondem no sorriso

na palavra medida

devo dizer

que o poeta gullar é uma criança

que não consegue morrer


e que pode

a qualquer momento

desintegrar-se em soluços.


Você vai rir se lhe disser

que estou cheio de flor e passarinho

que nada

do que amei na vida se acabou:

e mal consigo andar

tanto isso pesa.


Pode você calcular quantas toneladas de luz

comporta

um simples roçar de mãos?

ou o doce penetrar

na mulher amorosa?


Só disponho de meu corpo

para operar o milagre

esse milagre

que a vida traz

e záz

dissipa às gargalhadas.

Nós latino-Americanos - Ferreira Gullar


à Revolução Sandinista


Somos todos irmãos

mas não porque tenhamos

a mesma mãe e o mesmo pai:

temos é o mesmo parceiro

que nos trai.


Somos todos irmãos

não porque dividamos

o mesmo teto e a mesma mesa:

divisamos a mesma espada

sobre nossa cabeça.


Somos todos irmãos

não porque tenhamos

o mesmo berço, o mesmo sobrenome:

temos um mesmo trajeto

de sanha e fome.


Somos todos irmãos

não porque seja o mesmo sangue

que no corpo levamos:

o que é o mesmo é o modo

como o derramamos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pessoa - Ferreira Gullar

ALBERTO CAEIRO - Uma rosa.

FERNANDO PESSOA - É tão bela que até parece existir.

CAEIRO - O que em ti pensa está sentindo, e tu pensas o que desejas sentir.A rosa existe.

PESSOA - A rosa, que vejo, existe...Fito-a. O que em mim sente está pensando: existe?

CAEIRO - É o mal dos metafísicos. Exigem que as coisas tenham sentido, quando elas não precisam de sentido para existir. Transformam o ser numa idéia e negam a existência pelo raciocínio.

RICARDO REIS - Enquanto vocês discutem, a rosa murcha. Prefiro colhê-la e lhe aspirar o perfume.

ÁLVARO DE CAMPOS - Ou não colhê-la...A idéia de colher a rosa é bem melhor que o ato de colher a rosa. E se basta.E tanto um quanto o outro não são nada.

CAEIRO - É como dizia. Os metafísicos buscam o sentido oculto das coisas, mas o sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum. As coisas são, e é o bastante.

PESSOA - Por um instante acredito no que dizes. Aceito-o mesmo...Mas, não! É um pensamento bom para se ter à hora da morte.

CAMPOS - Toda hora é a hora da morte. Que pensas tu que fazes a todo instante senão morrer? Se toda hora é a hora da morte e nenhum pensamento nos satisfaz, é porque nenhum pensamento vale a pena. Exceto este.

REIS - Tudo o que desespera está errado. Os deuses nos ensinam a impassibilidade. Se a rosa é bela, colhâmo-la, e a nossa vida terá tido um pouco mais de beleza e de perfume. De que vale pensar na morte, se isso não a elimina? Tenhâmo-la como certa e vivamos cada minuto como se fosse o último.
PESSOA - Como seria bom acreditar que este minuto é o último. Ou este, ou este...
CAMPOS - Espere, você contou três minutos e nem se passou um ainda. Esperemos um pouco, talvez ao fim deste minuto tudo se acabe.
PESSOA - Um minuto é tempo demais. Viver intensamente todo um minuto é quase o mesmo que a vida inteira. O que me manterá o mesmo por sessenta segundos?
REIS - Joguemos um pouco.
PESSOA - Não posso. Joguem vocês.
CAEIRO - Não sei jogar xadrez. As plantas não jogam e eu, como as plantas, não preciso escapar de mim.
PESSOA - Ninguém escapa de si, porque cada um é o prisioneiro e a prisão. Como seria bom poder deixar quem sou como se deixa um cárcere, e ir para o sol.
CAMPOS - É, mas quem pensa no sol não tem o sol. O sol que tens é esse que imaginas e que perderias quando saísses à rua e o sol da rua te batesse na pele.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Fernando Pessoa por Alberto Caeiro

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

Fernando Pessoa por Alberto Caeiro

O que nós vemos das coisas são as coisas.
Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!).
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Destino - Almeida Garrett


Quem disse à estrela o caminho
Que ela há de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta - "Floresce!"
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há de ir pedir?
Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.

Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

sábado, 24 de outubro de 2009

Fernando Pessoa

O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que se compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:-
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Fernando Pessoa

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada.
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Isto - Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Liberdade - Fernando Pessoa

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem, ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
a distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por dom Sebastião,
Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Amar! - Florbela Espanca


Eu quero amar,amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz,foi pra cantar!

E se um dia hei de ser pó,cinza e nada,
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder...pra me encontrar...

Este inferno de amar - Almeida Garrett

Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma...quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei...dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

NÃO TE AMO -Almeida Garret

Não te amo,quero-te:o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo,quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo não!

Ai! não te amo,não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo, és bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo,que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero;
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!...não te amo, não

Poema de Luís de camões

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não-querer mais que bem-querer;
É um andar solitário por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence,o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Peço silêncio - Pablo Neruda


Agora me deixem tranquilo.
Agora se acostumem sem mim.

Eu vou cerrar os meus olhos.

Somente quero cinco coisas,
cinco raízes preferidas.

Uma é o amor sem fim.

A segunda é ver o outono.
Não posso ser sem que as folhas
voem e voltem à terra.

A terceira é o grave inverno,
a chuva que amei, a carícia
do fogo no frio silvestre.

Em quarto lugar o verão
redondo como uma melancia.

A quinta coisa são os teus olhos,
Matilde minha, bem-amada,
não quero dormir sem teus olhos,
não quero ser sem que me olhes:
eu mudo a primavera
para que me sigas olhando.
Amigos, isso é quanto quero.
É quase nada e quase tudo.

Agora se querem,podem ir.

Vivi tanto que um dia
terão de por força me esquecer,
apagando-me do quadro-negro:
meu coração foi interminável.

Porém porque peço silêncio
não creiam que vou morrer:
passa comigo o contrário:
sucede que vou viver.
Sucede que sou e que sigo.

Não será,pois lá bem dentro
de mim crescerão cereais,
primeiro os grãos que rompem
a terra para ver a luz,
porém a mãe terra é escura:
e dentro de mim sou escuro:
sou como um poço em cujas águas
a noite deixa suas estrelas
e segue sozinha pelo campo.

Sucede que tanto vivi
que quero viver outro tanto.

Nunca me senti tão sonoro,
nunca tive tantos beijos.

Agora,como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.

Me deixem só com o dia.
Peço licença para nascer.

O amor - Pablo Neruda

Amo o amor que se reparte
em beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno,
mas pode ser fugaz.

Amor que se quer liberar
para seguir amando.

Amor divinizado que vem vindo.
Amor divinizado que se vai.

Pablo Neruda

Quero, quando eu morrer,tuas mãos em meus olhos:
quero a luz, quero o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim essa doçura:
sentir tua suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto, adormecido,
espero que teus olhos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo siga vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segues florescendo, florida,

para que alcances tudo o que o meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão de meu canto.

domingo, 11 de outubro de 2009

PABLO NERUDA

Talvez não ser é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

sem que sejas, enfim, sem que viesses
brusca, incitante, conhecer minha vida,
aragem de roseira, trigo do vento,

e desde então sou porque tu és,
e desde então és, sou e somos
e por amor serei, serás, seremos.

e

PABLO NERUDA

Não te quero senão porque te quero
e de querer-te a não querer-te chego
e de esperar-te quando não te espero
passa meu coração do frio ao fogo.

Te quero só porque a ti te quero,
te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viageiro
é não ver-te e amar-te como um cego.

Talvez consumirá a luz de janeiro
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.

Nesta história só eu morro
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

PABLO NERUDA

NÃO ESTEJAS longe de mim um só dia, porque como,
porque,não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto,bem-amada,

porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.

PABLO NERUDA

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Antes de amar-te - Pablo Neruda

Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio,morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,

tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.

O amor, quando se revela - Fernando Pessoa

O amor,quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
p'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito,cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar...

As sem razões do amor - Carlos Drummond de Andrade


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque ter amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge aos dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque o amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Para viver um grande amor - Vinicius de Moraes


Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... - não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro - seja lá como for.Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um grande amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fieldade - para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut, além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô - para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito - peito de remador`. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista - muito mais, muito mais que na modista! - para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, estrogonofes - comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor.Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia - para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque(com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que - que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada - para viver um grande amor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Testamento - Manuel Bandeira


O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.

Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.

gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!...Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.

Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!

Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!

Ubiquidade - Manuel Bandeira

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino:
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.

Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.

Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das cousas,
Serás no fim do universo.)

Estás na alma e nos sentidos.
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

Improviso - Manuel Bandeira

Cecília, és libérrima e exata
Como a concha.
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.

Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta.
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.

Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana.
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?

Definição:
Concha, mas de orelha;
Água, mas de lágrimas;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração
Da asa de uma abelha.

Resposta a Vinicius - Manuel Bandeira

Poeta sou; pai, pouco; irmão, mais.
Lúcido, sim; eleito, não;
E bem triste de tantos ais
Que me enchem a imaginação.

Com que sonho? Não sei bem não.
Talvez com me bastar, feliz
- Ah feliz como jamais fui! -
Arrancando do coração
- Arrancando pela raiz -
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Arte de amar - Manuel Bandeira

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Madrigal melancólico - Manuel Bandeira

mO que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si.
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza.Nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

Porquinho-da-índia - Manuel Bandeira

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala
pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.

Madrigal tão engraçadinho - Manuel Bandeira

Teresa,você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida,inclusive
o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.

A rua das rimas - Guilherme de Almeida


A rua que eu imagino,desde menino,para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas, douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo,de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, cotidiano, desumano, mas brando e brando, soltando, de vez em quando, na luz rala de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarme das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio, junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que me mata...);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio...

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer;
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calçadas nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito,bendito,que sempre repito
e que rima com mocidade,liberdade,tranquilidade: RUA DA FELICIDADE...

Prelúdio número 2 - Guilherme de almeida

Como é linda a minha terra!
Estrangeiro, olha aquela palmeira como é bela:
parece uma coluna reta reta reta
com um grande pavão verde pousado na ponta,
a cauda aberta em leque.
E na sombra redonda
sobre a terra quente...
(silêncio!)
...há um poeta.

Carta à minha alma - Guilherme de almeida

Minha desconhecida
Nós vivemos
num mundo tão pequeno para nós,
tão juntos - e ainda não nos conhecemos.
Você não sabe ainda a cor
dos meus olhos, nem a inflexão da minha voz,
nem o humano calor
das minhas pobres mãos de barro,
nem o perfume azul do meu cigarro...
Eu ainda não sei a altura do seu céu,
nem o vôo levíssimo do véu
dos seus sonhos e dos seus dedos,
nem o nível dos seus folguedos,
nem o fundo dos seus segredos...
No entanto, um mesmo teto abençoa e agasalha
nossas vidas alheias
(como é um mesmo o que abriga o crente e a santa):
moramos paredes-meias,
como o homem triste que trabalha
e a menina boêmia que canta...
Nós somos dois anônimos vizinhos.
E, para sermos "dois" no mundo, para
sermos assim sozinhos,
entre a nossa recíproca ignorância,
entre nós dois, há apenas a distância
da parede comum que nos separa.
Ela chama-se"Vida" .
Só ela nos divide - a opaca intrometida.
Contra essa intrusa, para disfarçá-la
eu,daqui do meu lado, ao longo desta sala,
estendi numa longa, longa estante
toda uma biblioteca anestesiante.
Do seu lado, ela deve estar vestida
com um chale de cachemira sobre o qual
ressona o oco de uma guitarra adormecida,
e fenece um retrato íntimo e antigo, a lápis,
com uma florzinha pálida dos Alpes
esmigalhada no cristal...
Assim tão juntos nós vivemos
e infelizmente nem sequer nos conhecemos.
Hoje, não sei por que,
tive vontade de escrever para você,
de perguntar baixinho ao seu ouvido:
-Diga! para que nós nos encontremos
será preciso, então, que algum ciclone
se abata sobre nós e desmorone
a parede comum que nos separa: a Vida?
Ou - o que para mim será mais morte ainda -
minha linha imortal, minha alma linda,
será que alguma vez nós já nos encontramos
e, sem nos ver, sem nos reconhecer, passamos?...