quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Madrigal melancólico - Manuel Bandeira

mO que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si.
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi,
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza.Nem a tua impureza.

O que eu adoro em ti - lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

3 comentários:

  1. Esse é um dos mais lindos! Foi um dos que eu usei no casamento, lembra?
    Como a poesia consegue fazer isso com a gente? É como se cada verso não fosse novo, mas sim fosse uma lembrança de um tempo imemorial...

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Eu não lembrava do poema só por causa do casamento mas porque quando o leio acho que se parece com Alê+Isa.

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